Biólogos instalam armadilhas para ratos em Ushuaia para descartar hantavírus
Uma equipe de biólogos começou, nesta segunda-feira (18), a colocar armadilhas para ratos nos arredores da cidade de Ushuaia, em uma pesquisa por amostra para descartar a presença de hantavírus nessa cidade no extremo sul da Argentina, constatou a AFP.
A investigação é realizada após o surto de hantavírus ocorrido no navio de cruzeiro Hondius, que partiu de Ushuaia em 1º de abril. Três passageiros morreram e vários foram contaminados, desencadeando alertas sanitários em vários países.
Com luvas, máscaras e equipamentos de proteção, um grupo de 11 especialistas e funcionários de parques nacionais espalhou dezenas de armadilhas ao anoitecer nas trilhas próximas a Baliza Escarpados, onde há um mirante turístico da cidade.
Também colocaram armadilhas em diferentes pontos de áreas de mata do Parque Nacional Terra do Fogo, informou à AFP uma fonte do Ministério da Saúde.
O parque fica a cerca de 15 quilômetros de Ushuaia, um local com cerca de 70 mil hectares de florestas nativas entre lagos e montanhas, que recebe cerca de 400 mil visitantes por ano.
Pela manhã, eles irão verificar as capturas e levá-las para um centro de campanha, onde extrairão amostras de sangue e tecido que depois serão analisadas no Instituto Carlos Malbrán, em Buenos Aires, o principal em pesquisa de virologia e epidemiologia. Os resultados levarão quatro semanas.
Os três biólogos do Malbrán que chegaram nesta segunda-feira a Ushuaia para conduzir o trabalho junto com especialistas locais evitaram qualquer contato com a imprensa.
Um comunicado do Ministério da Saúde informou sobre os trabalhos de captura, que continuarão durante o restante da semana.
A província de Terra do Fogo, uma ilha no sul do país cuja capital é Ushuaia, não registrou nenhum caso de hantavírus desde que a notificação obrigatória dessa doença, endêmica em grande parte da Argentina continental, foi implementada em 1996.
- Sem alarme -
Ushuaia, um dos principais destinos turísticos da Argentina, acompanha o assunto com indiferença.
"Zero, nós que vivemos em Ushuaia não estamos preocupados porque sabemos que aqui nunca houve hantavírus e os turistas nem sequer perguntam sobre o assunto", disse à AFP Juan Cores, funcionário do Trem do Fim do Mundo.
O ritmo do turismo é lento, enquanto a cidade aguarda o início da temporada de inverno e após o término da temporada de cruzeiros, há um mês. Essa temporada registrou 495 escalas de navios e mais de 135 mil visitantes na cidade, que depende do turismo para 25% de sua renda.
A cepa Andes do hantavírus, a variante mais perigosa por ser a única transmitida entre humanos, é disseminado pelo rato-do-arroz ou rato-de-cauda-longa (Oligoryzomys longicaudatus), também encontrado em outras áreas do sul da Argentina e do Chile.
Este rato nunca foi avistado na Terra do Fogo, onde outro roedor do Estreito de Magalhães (Oligoryzomys magellanicus) está presente, embora haja debate científico sobre se ele seria uma subespécie do primeiro.
"O roedor está presente na Terra do Fogo; alguns o consideram a mesma espécie, outros uma subespécie, mas o importante é analisar se algum deles está infectado com hantavírus", explicou Juan Petrina, diretor de Epidemiologia e Meio Ambiente da província.
- Selvagens e noturnos -
Este roedor selvagem de hábitos noturnos mede entre 6 e 8 centímetros e tem uma cauda de até 15 centímetros de comprimento. Vive em tocas que constrói e se alimenta de frutas e sementes.
O primeiro caso confirmado da doença no cruzeiro Hondius foi um observador de pássaros de 70 anos. Ele e sua esposa estão entre os que morreram no surto a bordo do navio.
Antes de partirem de Ushuaia, viajaram por terra durante quatro meses por Argentina, Chile e Uruguai. Como e onde contraíram o vírus permanece um mistério.
Segundo Guillermo Deferrari, doutor em Ciências Naturais e professor do Centro Austral de Pesquisa Científica (Cadic), que falou à AFP, as amostras coletadas de ratos na Terra do Fogo testaram negativo para hantavírus até o momento.
"Os novos estudos dos técnicos do Malbrán reforçarão e atualizarão essas informações. É uma boa oportunidade para obter resultados conclusivos e avaliar com mais precisão o perigo potencial representado por esses roedores", acrescentou.
A geografia tem sido uma barreira para que a Terra do Fogo permaneça livre do hantavírus. "Mesmo que o indivíduo esteja aqui, a cepa do vírus está do outro lado, e é impossível um rato viajar até aqui. A única possibilidade seria se alguém trouxesse um rato infectado", explicou.
F.Gentile--GdR