Copa do Mundo lança um raio de luz em meio à escuridão em Gaza
Um telão chama a atenção em um mercado escuro, um raro ponto de luz na Faixa de Gaza, que há meses enfrenta escassez de eletricidade.
Dezenas de homens e rapazes assistem ansiosos à partida Bélgica–Egito da primeira fase da Copa do Mundo de 2026, um dos duelos mais aguardados pelos torcedores palestinos, impacientes para ver as façanhas de seu ídolo, o "Faraó" Mohamed Salah.
O empate (1 a 1) não os desanima; alguns sobem nos ombros dos amigos, outros agitam enormes bandeiras egípcias.
Ao fim da tarde, o clima de Copa do Mundo havia se espalhado por todo o bairro de Nuseirat, no centro da Faixa de Gaza.
Os sorrisos se multiplicavam em meio às ruínas onipresentes após mais de dois anos de guerra entre Israel e o movimento islamista palestino Hamas.
- Fuga -
"A Copa do Mundo não é um evento trivial qualquer para os habitantes de Gaza", explica à AFP Mustafa Siam, membro da Federação Palestina de Futebol, cujo presidente não conseguiu visto para os Estados Unidos e o Canadá, dois dos países anfitriões do Mundial.
"Os torcedores palestinos vão tentar acompanhar as partidas e esquecer suas preocupações e sua dor", afirma esse homem de jaqueta vermelha, cor da seleção palestina.
De fato, vários proprietários dos pequenos cafés que surgiram na Faixa de Gaza se esforçam para recriar o clima das grandes competições anteriores. E não faltam clientes, apesar da miséria e da tristeza que predominam no ambiente.
Em Zawaida, no centro da Faixa, há um estabelecimento rudimentar montado sob a lona de um acampamento improvisado para deslocados, que transmite os jogos em uma pequena tela. Os comentários dos espectadores se misturam ao zumbido de um gerador.
- Éramos felizes -
"O mundo vive e aproveita a vida, enquanto nós não temos nem sequer um teto, uma escola ou eletricidade para poder assistir aos jogos", afirma.
Na beira-mar, vários pequenos cafés exibem as partidas, mas os geradores frequentemente param de funcionar, para irritação dos espectadores.
Os garçons têm de se virar para pôr em funcionamento aparelhos obsoletos, ligados por fios elétricos gastos, e torcer para que dê certo.
Várias pessoas ouvidas pela AFP citaram lembranças do Mundial anterior, em 2022, no Catar, quando telões foram instalados nos estádios Palestina e Yarmuk, na Cidade de Gaza, onde milhares de torcedores se reuniam para assistir às partidas noturnas.
Outros estabelecimentos de hospedagem e alimentação onde as pessoas costumavam assistir aos jogos, como o café Istambul, foram destruídos durante a guerra.
Marouane al-Cheikh, de 30 anos, que atualmente vive em uma tenda, lembra que acompanhou a edição anterior do torneio com seus amigos em diferentes cafés da moda em Gaza.
"Éramos felizes", recorda. "Já não sinto esse entusiasmo, assisto às partidas em um café instalado sob um toldo, hoje somos miseráveis, nossa visão de mundo mudou, não só em relação ao futebol".
E.Barbieri--GdR