Colombianos encaram com surpresa e 'medo' 2º turno entre extrema direita e esquerda
De direita ou de esquerda, os colombianos receberam com otimismo os resultados da eleição que levaram o advogado Abelardo de la Espriella e o senador Iván Cepeda ao segundo turno da disputa pela presidência, mas também expressaram medo com o que cada candidato representa.
Após uma votação acirrada no domingo (31), o país voltará às urnas em 21 de junho para escolher o próximo chefe de Estado entre dois extremos: um advogado milionário que se apresenta como um "outsider" e um popular senador de esquerda, herdeiro das políticas sociais do presidente esquerdista Gustavo Petro.
A eleição acontece em um ambiente polarizado e sob a onda de violência mais grave da última década no país.
Admirador de Donald Trump, De la Espriella recebeu 43,7% dos votos no domingo, um "resultado surpreendente" e "inesperado", segundo Felipe Botero, professor de Ciências Políticas na Universidade dos Andes.
"As pesquisas sugeriam que seria o contrário, que o mais votado seria Cepeda", acrescentou. O candidato de esquerda recebeu 40,9% dos votos.
Uma sensação agridoce dominou o hotel Tequendama, no centro de Bogotá, onde a esquerda recebeu o anúncio da contagem preliminar do primeiro turno.
Longe de vencer no primeiro turno como esperava a chapa governista, o candidato de esquerda e senador de 63 anos caiu – ainda que por pequena margem – para o segundo lugar.
Centenas de pessoas compareceram para apoiar Cepeda e gritaram palavras de ordem como: "Não passarão" e "Sim, é possível".
- "Sangue novo" -
"Um outsider é o que a Colômbia precisa", disse Víctor Castellanos, empresário de 32 anos que votou em De la Espriella em seu reduto, Barranquilla (norte), onde centenas de pessoas se reuniram nas ruas para celebrar o resultado do primeiro turno.
"Estamos em uma etapa supercrítica em que o comunismo (...) pode tomar conta da Colômbia", acrescenta, sobre a possibilidade de uma vitória de Cepeda.
O advogado excêntrico de 47 anos encarna o desencanto com a política de "paz total" de Petro, o primeiro político de esquerda a governar o país, que tentou, sem sucesso, dialogar com todos os grupos armados para que entregassem as armas.
Cepeda, idealizador da política fracassada de Petro, é criticado pelos eleitores de direita, que o associam à indulgência com o crime.
"Mão dura é o que é necessário. Já vimos que a paz total foi um fracasso total", afirmou Castellanos, preocupado com os níveis de criminalidade e extorsão que afetam o país.
De la Espriella afirma ser "o verdadeiro outsider" da disputa. Durante a campanha, ele destacou sua falta de experiência na política como uma virtude.
Felix Ramírez, outro eleitor do advogado em Barranquilla, valoriza justamente o fato de ele ser "um empresário que não tem uma carreira política".
"Precisamos de sangue fresco, sangue novo", opina o funcionário de um call center de 59 anos.
De la Espriella também propõe uma redução do Estado ao estilo do presidente argentino Javier Milei. "Ele representa (...) a livre criação de empresas e o livre mercado", diz Castellanos.
- Esquerda com medo -
Cepeda prometeu seguir com a marca do atual governo: estar ao lado dos pobres, dos jovens, dos afrodescendentes e dos indígenas.
"Ele conseguiu batalhas", disse María Fonseca, estudante de 22 anos, eleitora da esquerda. "Tenho medo do que pode acontecer, de que (De la Espriella) vença", acrescentou.
A esquerda conseguiu mais de 9,6 milhões de votos, segundo a contagem preliminar da entidade responsável por organizar as eleições, mais do que no primeiro turno de 2022, quando Petro recebeu quase 8,5 milhões de votos.
Para Carolina Ponzo, uma curadora de arte da capital, de 70 anos, a ascensão da extrema direita é "tenebrosa" e "inesperada".
"Há uma globalização da extrema direita a nível mundial que é aterrorizante", disse, antes de destacar que espera "o milagre que Petro fez" para o segundo turno.
Atraídos pela promessa de forte apoio à questão social com Cepeda, alguns eleitores percorreram centenas de quilômetros para acompanhar o candidato de esquerda em Bogotá, como representantes do povo indígena Kamsá em Putumayo, região amazônica na fronteira com o Equador.
No segundo turno, competem "a democracia ou o fascismo", afirmou Sandra Chindoy, senadora governista e liderança indígena Kamsá.
Se a esquerda conseguir vencer no segundo turno, a Colômbia terá uma vice-presidenta indígena pela primeira vez em sua história, a líder nasa Aida Quilcué.
G.Lombardi--GdR