Cúpula do Mercosul começa com crítica a assimetrias do pacto com a UE
A 68ª cúpula de presidentes do Mercosul começou nesta terça-feira (30), em Assunção, com uma dura crítica do presidente paraguaio, Santiago Peña, às "assimetrias" geradas após a assinatura de um acordo de livre comércio com a União Europeia.
Os membros do bloco expressaram sua solidariedade com a tragédia que assolou a Venezuela após os terremotos mortais da última quarta-feira, e anunciaram que tomarão ações coordenadas para ajudar o país.
Peña, que passará a presidência pró-tempore do bloco ao Uruguai, abriu esta assembleia nos 35 anos de criação do Mercosul, em 1991. E o fez com uma dura reclamação.
"O campo não está nivelado para todos por igual, não temos o mesmo mercado, nem as mesmas indústrias, nem a mesma logística", disse Peña ao inaugurar a sessão na sede da Conmebol em Luque, nos arredores da capital paraguaia.
Além do anfitrião, participam da cúpula os presidentes dos países-membros Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Rodrigo Paz (Bolívia) e Yamandú Orsi (Uruguai), além dos associados José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador).
O argentino Javier Milei, que inicialmente tinha confirmado sua participação, a cancelou em meio à convulsão política em casa devido à renúncia de seu agora ex-chefe de gabinete por um escândalo de suposto enriquecimento ilícito.
Em seu duro discurso de abertura, Peña exigiu "resultados concretos" para que o acordo com a União Europeia, assinado em janeiro e cuja ratificação pela UE segue pendente, corrija "as assimetrias".
- "Gosto amargo" -
Peña denunciou o "gosto amargo" que a implementação inicial do acordo com a UE deixou para seu país.
O presidente paraguaio fez alusão ao problema sensível da distribuição de cotas de exportação com preferências tarifárias no bloco regional para os produtos destinados à UE.
"É uma questão de justiça. Um Mercosul sem justiça é qualquer coisa menos um bloco fraterno", queixou-se, quando alguns dos parceiros conseguiram se destacar nas primeiras etapas do novo pacto comercial.
A UE oferece cotas de importação com benefícios tarifários e é o Mercosul que deve resolver como distribui o volume entre seus membros.
"Se o Mercosul quer ser confiável para fora, primeiro deve ser justo para dentro", afirmou Peña, o primeiro a discursar na cúpula do bloco.
"Queremos um Mercosul onde o mais forte pisoteia o mais fraco?", questionou.
"O Paraguai mantém sua posição sobre a distribuição das cotas. Isto não é um capricho, isto é justiça", acrescentou Peña.
- Minuto de silêncio -
Os chefes de Estado devem aprovar o início oficial dos diálogos para um acordo de livre comércio com o Japão e os detalhes técnicos do acordo com a União Europeia, assinado em janeiro passado na capital paraguaia e vigente desde maio.
A pedido de Lula, os mandatários presentes fizeram um minuto de silêncio em "solidariedade" à Venezuela e às vítimas dos terremotos mortais que deixaram mais de 1.700 mortos.
"Quero começar a minha fala dedicando minha solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela diante das perdas humanas e materiais incalculáveis causadas pelos terremotos da semana passada", disse Lula.
"Tragédias como essa convidam a uma reflexão sobre a importância da solidariedade e da cooperação regionais", afirmou Lula após o minuto de silêncio.
O presidente uruguaio, Yamandú Orsi, anunciou que "esta manhã, as autoridades de gestão de risco de (os) países do Mercosul se reuniram para coordenar ações conjuntas para ajudar" a Venezuela, sem dar detalhes concretos.
- Apoio ao governo da Bolívia -
O Mercosul também reiterou seu apoio firme ao governo do presidente Rodrigo Paz na Bolívia, após semanas de bloqueios rodoviários pedindo sua renúncia, realizados por sindicatos, indígenas e camponeses, em meio à pior crise econômica no país em quatro décadas.
Peña expressou seu "firme repúdio a toda tentativa de desestabilizar a república irmã da Bolívia" e o governo de Paz, "eleito legitimamente em eleições livres e justas", em outubro do ano passado.
Orsi, por sua vez, expressou a "solidariedade do Uruguai com o governo e o povo da Bolívia frente à situação complexa que têm atravessado".
Paz, por sua vez, lamentou "os tristes acontecimentos para todos os latino-americanos ocorridos na Venezuela" e lembrou dos "que morreram em mais de 50 dias de bloqueios na Bolívia. Mulheres, crianças, que não podiam passar em ambulâncias por causa dos bloqueios".
O presidente boliviano disse, ainda, que seu país "atravessa momentos complexos", com "ameaças à ordem institucional" e agradeceu a solidariedade regional com o Executivo que chefia.
R.Tedeschi--GdR